O crepúsculo de Havana sempre me fez crer que as palmeiras pegariam fogo. Eles me prometeram fogo todos os dias e eu recebi todas as noites com o mesmo frio pesado do mar e com as cortinas abertas, onde imaginava todas as nuvens fumaça de carbono que engolia a lua.
No saguão do hotel, um homem olhava rindo. Ele tinha, todos os dias, o mesmo sorriso. O sorriso de alguém tão fodido que nenhum dia era ruim, todos eram engraçados e poéticos a sua maneira. A pele negra dele reluzia suave com o contorno da luz dos abajures, marcando as rugas como sombras fundas que pareciam prestes a verter ouro. O chapéu velho pendia sobre os olhos e ele enrolava um cigarro para presentear a Fidel. Toda noite era um novo cigarro, guardado em uma caixa que, quando ele morresse, de acordo com o testamento, deveria ser entregue diretamente para El Führer, com toda a paixão dos meus lábios e o veneno da minha língua.
Ojos rojos, ele sussurrou quando eu tomava a rua.
Filho da puta, eu compartilhava o sorriso.
Diga-me como cagasse tudo, cabrón.
Digo-te nada que tu já não saibas; me lembro de palavra nenhuma, apenas do caminhar até a porta.
E da porta até onde?
Tu és quem sentinela a saída, como eu saberia?
Não se perde de vista mulher assim.
O diabo talvez não perca, mas meus olhos são cegos.
Bem, é o seu peito que arde.
Infelizmente. Sonho sempre com o dia que será a tua Havana.
Eu também, cabrón, eu também. Que haces ahora?
Nyet. Tenho pilhas de papel sem porra nenhuma lá em cima.
Sua cabeça deve estar enfumaçando.
Mais do que o meu coração.
(!!)
ResponderExcluir