Uma névoa se estendia ante postes, por pouco mais do que uma dezena de metros. Caminhando dentro dela, podia ver apenas resquícios de luz, como se através de vidro embaçado, de casas no horizonte, de postes acima, das estrelas, da lua, do farol dos carros que passavam. A luz passava mais lenta, deixando traços, marcando o caminho no horizonte como pinceladas em uma tela em branco.
E, como a luz, ele se perdeu no caminho. Tudo acontecia atrasado - ele expirava fumaça do frio no meio de uma inspiração, cegando antes de piscar, vendo os carros cruzarem a estrada apenas para ouvir os motores momentos depois - e cíclico, como se cada experiência fosse a antiga novamente, até que cada pensamento, desejo e ânsia do momento estivessem tão repetidamente dentro de si que ele sufocava com tanta banalidade.
Ela tocou-lhe o ombro. Ele virou. Ele virou. Ela tocou-lhe o ombro. Ela tocou-lhe o ombro. Ele virou. -- você entendeu. Ela o olhava com certos olhos, os mesmos de sempre, mas mais nus, mais assustadores. Ela o via por dentro. Sua boca se mexeu, os lábios sem serem lidos e as palavras sem serem ouvidas. Ela curvou as sobrancelhas, cerrando os olhos. Ela esperava uma resposta, ele esperava as palavras o alcançarem. Ela desviou o olhar, finalmente, tão docemente desapontada que os cabelos soltaram-se para cobrir-lhe a expressão. Caminhou para longe, enquanto a névoa o engolia quando ele, ainda mudo, via-se gritando no futuro pela sombra de alguém que não estava mais lá.
Ele correu, tão atrasado quanto desesperado, e deixou a névoa para o vazio. Ela não estava mais lá, mas suas palavras o alcançaram, enfim. E talvez ele tivesse preferido não ouvi-las.
teu personagem sempre perde as oportunidades!
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