O velho louco ficava sentado em uma cadeira de armar listrada no jardim, todas as manhãs, para pegar sol e fotossintetizar um pouco. A camisa velha, mas bem lavada, passada e estampada de flores entreabrindo no pescoço e descendo até o meio do peito, para respirar melhor, revelando cabelos grisalhos que, contrários ao alinhamento dos da cabeça, eram uma confusão decadente. Ele não era louco de verdade, ele apenas falava sozinho; o que antes era uma louvável retórica, agora era verbovirulência temida pelos vizinhos.
"A senhora que passa com o cachorro", ele começou naquela manhã, "usa perfume demais. Ele entra pelas minhas narinas, sobrepondo o perfume das rosas, e, estagnando-se perto do cérebro, faz-me considerar uma lobotomia. Ela sempre olha-me estranho, pouco desejosa, mas o cachorro ela sempre trata bem. Um dos dois caga na frente de casas alheias, e não sou eu; ainda resta-me sanidade em certas partes do corpo. O cachorro já virou a esquina, deixou-a para trás. Eu entendo a distância, eu também tentaria escapar desse cheiro. ... Um rapaz aproxima-se" -- Como vai? "e pergunta-me como eu vou. Eu não vou, eu sempre fico e nada me custa a companhia, então pode se sentar, eu respondo. Um dia eu fui, quando ainda era jovem e saudável e não fazia as pessoas indagarem, ao chocarem-se comigo pelos corredores, de quem eram aqueles olhos; porque essas olheiras que agora os emolduram não existiam, e não os faziam tão distantes, como se fossem uma luz no fim do túnel. Pelo contrário, ainda existia uma saúde de locomotiva, que cuspia um vapor que fazia as jovens perderem o fôlego, e ela era tão clara quanto o azul dos olhos da menina que mora dentro da casa próxima ao terceiro poste a direita, contando a partir daqui. Os olhos dela são bastante azuis, lembram-me do... a vizinha fofoqueira vai sair para fazer compras. Toda vez que ela passa é necessário silêncio, para não arriscar que a língua me traia e desperte a dela que, por demais afiada, pode custar-me a cabeça. Ela anda rápido, deve precisar comprar trigo ou açúcar para terminar a comida. Ela só é assim obstinada quando o leite ainda ferve sobre o fogão. E agora ela vai ao longe, além de onde as orelhas de morcego dela podem escutar. Aliás, alguém deveria dizer a ela que é essa bisbilhotisse que lhe construiu o carma que cedeu a seu filho aquelas orelhas de abano. Como eu dizia, os olhos azuis da menina daquela casa empalideceriam perante um outro par de olhos que eu conheci. Ainda mais azuis, ainda mais brilhantes, você conseguia pentear os cabelos olhando para eles, e passar mousse olhando para eles, e fazer a barba olhando para eles, e cortar a jugular com a navalha e morrer sangrando sem arrependimentos por ainda olhar para eles. Eles me ouviam reclamar e cantar e a eles eu jurei amor eterno, que ainda guardo mesmo sabendo que a muito eles são apenas cinzas. Foram comidos pela guerra. Não por bombas, nem ondas atômicas, mas por uma mulher traída, que levou eles de mim sem nenhuma despedida e fez com que a notícia da morte só chegassem quando eles já estavam ressecados e opacos e não havia como vê-los uma última vez... o rapaz ao lado não pára de bater os dedos. Ele espera que eu durma. Ele nunca gostou das minhas histórias; esse velho babão, ele pensa, deve ter sido babão a vida inteira e não adianta ficar escrevendo com a boca a céu aberto que não me engana. Mas eu vivi coisas. E coisas demais. Todos os sonhos e corações partidos, tesouros de piratas e monstros da montanha, são todos meus. O outro rapaz sempre me entende e vê a verdade. Esse só espera para levar-me para dentro, para ver-me branco sobre a cama. Mas dia após dia ele vê-me verde, transcendendo essa existência, em rugas de celulose. Finjo que durmo para que me leve embora e para que se liberte, sabendo que amanhã a menina sairá de casa mais cedo e me cumprimentará com um aceno e aqueles olhos que reavivam as borboletas do jardim. E é a calma da rua de hoje que fará suportável a tempestade de lágrimas da noite nostálgica de amanhã."
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