sábado, abril 19, 2008

abstração número um

Ele era um vagabundo. A senhoria indagava-se com as vizinhas por que ele nunca lavava as unhas? ou por que as roupas estavam sempre tão descuidadas? e por vezes até esquecia porque deixava ele ficar ali mesmo?. Era melhor tê-lo que um bêbado e, apesar de nunca receber muito pelas acomodações, ela não conseguiria mais por um quarto atolado no lado de uma dispensa de vassouras e mofo; a cerveja que ele a servia sempre que ela aparecia era sempre boa, mas ela nunca sabia porquê.

Ele nunca falava mal dela, porém, porque mesmo quando ela comentava nas escadas - e ele ouvia, porque mesmo sem luzes para vazar pelas frestas do corredor, seus olhos ainda estavam abertos e ele ainda se importava - de que o achava tão estranho e quieto, como quando ele passava como uma sombra e a cumprimentava com a cabeça e isso disparava um frio na entranhas dela que pareciam uma marca do diabo e ela achava que ele era gay, quando ela trazia café para ele, ela sempre deixava a colherzinha, para ele poder ficar mexendo o quanto quisesse. Não que ela fizesse isso de propósito, ela apenas era uma daquelas mulheres que deixavam a colherzinha.

Além disso, ele mal saia do quarto. Ele mal fazia qualquer coisa. Normalmente ele apenas caminhava um pouco de vez em quando e aparecia com um pouco de dinheiro e uma garrafa meio estranha - que era o que ele jogava na cerveja e ela achava uma delícia, mesmo sem saber o que era - e voltava pro quarto e ficava lá, de novo. O terceiro filho dela não gostava muito dele, dizia que ele tinha cheiro de escarro. O mais novo gostava, mas o mais novo era estranho, também. Um dia ele tinha entrado no quarto do vagabundo e os dois tinham conversado um pouco e o pequeno saiu rindo, mas dois dias depois ela encontrou ele dentro do banheiro, repousando a cabeça em uma das esquinas de azulejos e cantando baixinho uma música que ela não entendeu, mas lhe soou comunista. Ela quase subiu para dar-lhe uma bronca e o jogar para fora dali, mas não subiu porque lembrou que o homem que morava lá antes costumava mijar no chão e ela odiava limpar aquilo. Esse ali só tinha as unhas sujas e o cabelo meio mal cortado o tempo todo.

Um dia, porém, as portas abriram com ele caminhando para fora pesado, numa marcha de angústia. Ele não andava mais curvado, como uma larva que se escondia, ele era ereto e circundado por brisa da batida de asas de borboletas. E sua insurreição foi cruel, porque agora ele moldava a realidade como bem entendesse, com seu eu lírico cansado de esperar por seu deus ex machina. Ele era seu próprio zeitgest, a arma de Chekov ignorada no canto que disparava no último ato e elevava-se aos céus depois de mastigar e cuspir a cidade de volta como Leviatã. Ele não era o fim nem o começo, mas todo o pathos da humanidade passava por suas mãos, quando ele os soprou com pulmões de lobo e os desfez como areia no tempo.

14 comentários:

  1. Gostei. Pra variar um pouco.
    Pode ter certeza que quando não gostar de algum texto vou escrever: Não gostei.
    E não é questão de elogios, e sim constatação. Além disso, além dessa constatação quais outras faço?

    Ah! Faltei o Aldabar ontem. Essa coisa de trabalho tá me matando. Hnfpt.

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  2. que vergonhas! matar o aldabar!
    oi? aceita um licor? haha

    Coisa boa ficar em casa o dia todo fazendo nada!

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  3. que demais ficar o dia todo sem fazer nada. Ainda mais com essa chuva. Nunca amei tanto domingo. Principalmente quando segunda não tem aula, nem trabalho!

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  4. pq esse etc, etc e etc? Bom, agora eu entendo mais ou menos aquela parada toda de proletariado e manifesto comunista. Ahh trabalhar é uma escravidão.
    E a música do Djavan é linda! Melhor que o teu personagem sujo com as unhas sujas. iew.
    Agora to editando aquele vídeo de paródia da novela. hoho
    beijos etc.

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  5. parece um vício escrever etc, etc e etc. Bom, jazz também é meloso e calmo etc. Portanto, tanto faz se ouvir um Djavan ou um jazz, etc. Virou moda chover sem parar na ilha! cte
    Hmm amanhã sem aula, sem trabalho e com chuva! Etc.

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  6. Muito estranho se comunicar assim, mesmo. Sim e sim. Já que orkut é de comer e etc. Ahh! Vou parar de usar esse etc. E jazz além de meio bossa nova ainda tem aqueles dançantes e etc, mas nada muito pesado. Aquela música combinava com o momento. Escutando os pinguinhos da chuva, sozinha em casa de pijama e descabelada. Uhul. Muito bom não fazer nada o dia todo. Tenho dito.

    Okay, ficou uma bíblia o comentário.

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  7. que estranho. Tava no blog da minha mãe. Nem sabia que ela tinha um. Anyway...

    beijos!

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  8. Ela não escreve. Nem sei pq criou um. Consegui botar música junto com o vídeo! Nossa! To muitissimo empenhada fazendo esse vídeo. Até vou tentar botar legenda em uma parte da cadeia que tá muito escuro!

    Beijos!

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  9. um caso para defender a minha dignidade

    MEDO do que possa achar.

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  10. Er... jeito muito estranho de conversa, com certeza.
    Aquele menino que tava ali na frente com a lista de nomes na aula de áudiovisual tá me ajudando mandando efeitos sonoros e ensinando onde fica as ferramentas básicas do moviemaker. Sério, ainda hoje eu termino!

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  11. 01:40 e ainda estou firme e forte botando a trilha sonora. HOHO
    hoje só acaba quando se vai para a cama, dormir.

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  12. estou nos créditos larara!!
    droga, não sei fazer os créditos!
    adiciona ai no msn pra ver o resultado final.
    Msn não é de comer.
    E as palavras nunca minguam. Nunquinha. Nem no silêncio. Muito menos nessa chuva que não vai parar tão cedo.
    hoho terminei o vídeo.

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  13. 04 da matina. Hora de dormir. Com ou sem vídeo pronto. Céus!

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  14. Este comentário foi removido pelo autor.

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