quinta-feira, janeiro 14, 2010

old stuff

"Me cansei de tudo. Acordar, dormir, entediar - dessa toda vida inteira. Só não me mato porque a vida, pelo menos, é reversível."

Janela adentro vinha o dia: luz puída de oito da manhã de domingo nublado, sonolento e cinza cáustico; as árvores da rua desfolhadas. Ele 'inda falava, porque nem sequer tinha ido dormir: o sábado ia entrar no domingo sem chance de recusa, num dia-a-dia anestesiado; ela nem perguntava mais os porquês dele - um coagulado filete de sangue d'uma veia ao cotovelo, bonito até era, mas vai dizer isso pro nojo.

Ela ia passar o café.

- Não, me escuta. Eu sei que isso não dá mais -- ela olhou, cara de sono. Os olhos inchados e o rosto amassado, a boca entreaberta, tinha até um pouco, umas casquinhas esbranquiçadas no canto do boca, porque ela tinha babado a noite inteira, ela dormia tão melhor sem ele na cama:

- Eu durmo tão melhor sem você na cama.

Ele olhou, meu deus, ele olhou tão sóbrio que ela se arrependeu, ela não esperava esses olhos, aliás, tinha dias em que ela achava que nem conhecia os olhos dele assim; foi então que ele disse: O que você quer dizer com isso?

Ela estava muito arrependida, muito mesmo, mas não tinha como voltar agora. Ela focou no café; o chiado da chaleira escapava numa fumaça que diluia aos olhos e pesava o ar; era da cor igual ao céu de naquela-hora. O coador -- Me diz! O que você quer dizer com isso?! ele vinha mais perto cheio de certeza e pés fortes determinados, mas ele parou antes de chegar perto, tinha medo de tocar nela, um medo incerto recente da resposta, ele coçou a nuca, ele sempre fazia isso, esperando O que... ele começou mas parou reticente -- e o pó de café preteando sobre o bule, ela jogou a água se infiltrando e saindo negra; um cheiro bom que os dois sentiam, subiu mais fumaça e o calor no rosto também era gostoso.

- A cama vazia é melhor para dormir.

- Por quê? O meu corpo te incomoda tanto assim? Porque eu posso ir dormir no sofá, ou sair da casa d'uma vez se tu quiser!

- Não, eu sinto a falta quando eu acordo, mas você se mexe muito de noite e--

- Você levanta para fazer xixi e para tomar água!

- ... mas eu adoro o calor do seu corpo do meu lado e o seu cheiro, mas sabe de uma coisa que eu percebi ultimamente?

- O quê?

- O seu cheiro não é mais o mesmo.

Ele parou num silêncio profundo e, na sua cabeça: uma vez que toda amor é química e cada humano tem sua própria composição de bases nitrogenadas juntinhas e essas bases DNAlizam em tudo que se produz lá dentro de seus corpos, são elas que florescem no calor e liberam esse suor carregado de cheiro do que é por dentro; e quando sente um cheiro bom cheirinho bom de pessoa amada ao âmago, é porque a química é a mesma e eles encaixam lindamente, com suas bases complementares apaixonadas; e é lá no saco que as coisas se agitam, nelas o útero contrái, seus corpos conspiram para o amor e é poesia de bocas se procurando e corpos perdidos um no outro e o embaralhamento de quem sou e quem é mudando lentamente e transformando, até serem tal como uma codependência de vida ou morte que é esse sofrido amor romeu&juliêstico. Disse, enfim: "O que você quer dizer com isso?"

- Não sei.

- Não sabe se ama, se me quer?

- Eu sei que te amo, mas não sei mais o que eu quero - não tem nada mais lindo do que uma manhã cinza de um dia vazio; ela via pela janela e era todo o mundo uma tela, se ela fosse uma artista, e era, porque era humana, essa gente que se fode pintando os dias com as cores do jornal, então sentia a angústia e o peito agitado no confronto entre o que se decide mostrar e o que lhe é chupada de qualquer jeito; esse é todo o peso de uma reticência - aliás, ninguém sabe o que quer.

- Eu sei. Eu queria amar errado a mulher certa, sangrar as dores duma vilania mal sucedida, chorar no escuro sozinho e com fome, me perder na madrugada duma cidade estranha, beber um chá de vidas passadas, encarnar um demônio antigo, ressucitar ao terceiro dia, poder ler a mente dos outros, desconhecer arrependimentos e ser outra pessoa.

Um comentário:

  1. Acho penosamente que esse blog é onde vem parar os textos que nunca nunca mais serão terminados.

    Um minuto de silêncio, por favor.

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