terça-feira, janeiro 12, 2010

Ele não sabia dançar, mas sabia beber; não era o melhor dos bêbados, mas ficava sociável. Ela tinha cabelo vermelho feito um pôr-do-sol desbotando em alaranjado e amarelo que ele achava um pouco feio e um pouco de charme, pintinhas de sol no ombros, amigos estranhos que não gostavam dele, essas coisas. Ele gostava de fechar as portas; fechava quando ia no banheiro e quando ia dormir, também quando lia e quando desenhava, ou seja, sempre que ele podia ficar vulnerável (ele nunca falava que amava ela numa via pública também; ela as vezes gritava na calçada em meio de madrugada adentro, mas era mais por estar gritando de noite do que por amar ele tanto que precisava gritar antes que explodisse!, ele pensava).

Eles se conheceram quando o verão era só um começo, um dia mais quente ou outro - ele não lembrava bem onde. Eles davam as mãos e conversavam sobre a vida, um dia foram à praia - já era, então, verão, tudo quente e com areia - e ele estava lá na água, as ondas ao redor dela e ela refletia na água em fragmentos, não mais que estilhaços vermelhos sobre o sal - ele mergulhou infatilmente para passar por baixo das pernas dela, percebendo, quase num afogamento, que agora era diferente e essa era uma má idéia. O dia fechou tímido, era uma nuvem aqui e outra ali até que o céu fosse cinzento de inteiro, sopresse um vento frio como de morte e a praia fosse desertiando - eles s'aconchegaram numa cama de areia e canga, s'esconderam entre as plantas, s'amaram quietos-como-podiam e envergonhados ao alcance dos olhos do mundo e nem nunca souberam se alguém viu.

Passaram não-sei-quantos-meses de mãos dadas, comemoraram no fim da primavera; foi o verão irradiar os primeiros calores em fios desbotados e ela longeou-se feito um bichinho acuado, cheiacheia de reticências e frases incompletas, olhares distantes, principalmente, que era o que ele mais odiava. Ela disse "Sabe, acho que a gente deveria dar um tempo" - ele disse "O quê?" entre todo ponto final - "Eu até quero ficar com você e tudo o mais" - ele pensou nunca ter visto jura de amor mais feia - "Mas as coisas estão tão sérias e nós somos tão jovens" - ele pensou também que ela era tão exagerada - "Talvez a gente veja o mundo e tenha certeza que é isso que a gente quer e a gente volta, porque... sabe--" - ah, claro que ele sabia, era tão óbvio o que seguia, ele também amava, mas quem é que não amava alguém no mundo naquele mesmo momento? Enfim. E ela foi. Aí entra: a temporada das chuvas.

[...]

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