Ela parada na frente do espelho, um púrpura violentado na bochecha, o sossego sôfrego no fundo dos olhos e no fundo do reflexo e ela lembra, impassível, da tarde subindo em crepúsculo, de como ele-- amiúde volta ele e ele e ele, ela fecha a janela. Sente saudade, muito porém, é das crianças, mormente. Seus pézinhos azulados descalçando a grama dos parques, a chuva insinuando ainda uma queda, o céu trovejando e tudo o mais: ela calada e quieta, reprimida, circunspecta, uma doçura sem palavras de braços abertos! Um deles se aproxima, o cabelo endemoniado pelo vento, o nariz ranhento, entrega um convite - o espelho mostra a careta do rosto, desgostosa - Você Está Solenemente Convidada - ela sente nojo, humilhação e vergonha agora, em retrospecto; poderia, mas como?!, ter pulsado eufórica no momento, tão tola e estúpida! e era o que era mesmo, tinha certeza, não havia dúvida; o sangue retornou à ponta da língua salgado, azedo, envenenado, ela engasgou e tossiu sufocada, pôs a mão no pescoço, maldisse o céu e o inferno toda dor e toda - Felicidade, era o que dizia, em letras garrafais e coloridas, esse embrulho disforme. As crianças cercaram-na com seus corpinhos diminutos - cada uma de uma cor; cabelos roupas braços pernas, toda a pele. Uma verde e outra roxa, então vermelha, azul, amarela, laranja, assim ia: pequeninos filhotes do arco-íris elas eram, impetuosas e irrequietas e cantavam sincopadas até que eram só ritmo e o ritmo era um mantra que hipnotizava e o toque de uma só foi o que bastou para ela perceber que o convite não exigia resposta, a Felicidade já tinha aparecido bem diante do seus olhos, gigante como a cegueira, impossível de não se ver. E ele ao seu lado.
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