quarta-feira, julho 08, 2009

mil novecentos e 52

"Até algum tempo atrás, o nosso tempo era tanto que nem se ligava mais. Eu vejo hoje, com o verão nessa secura, que os cristais de sal das pedras nas horas de maré baixa tem mais integridade na estrutura do que eu."

Cinquenta e sete anos antes -- há fumaça, como hoje, do seu cigarro -, virado de copos a mais de vodka barata num casebre à beiramar, num silêncio de muito pouco significado, pensava ele na cabeça (ela, que vem no pensamento que segue, tem cabelo de caracóis marrons d'ébano - e quando põe na orelha uma flor amarela parece uma sereia, ou mulher dessas pelas quais se apaixonam - e olhinhos de mel; dorme, agora, profunda no sono dos trôpegos e a cabeça bem atravesseirada no peito dele): que tanto sono tanto só podia ser pros braços d'outro.

A noite tinha duas vezes o infinito de estrelas e o cigarro apagava, fumado de leve e constante pela brisa do sul que gelava o nariz, quando ele percebia duas ursas maior degladiando-se pelo mesmo espaço de céu -- os amores dele, que fluiam feito verso c'um cheiro de lavanda, estabacou-se num banco de areia, redemoinhou (era onde ele estava agora), e deu meiavolta para longe da praia.

Ela acordou, as bochechas rosadas de verão, com o céu à três doze avos acima do horizonte, uma canga florida sobre os ombros e amor nenhum por perto. O mar borbulhava-lhe de volta.

"Só se ama de verdade, acho que posso dizer hoje, os beijos de verão".

2 comentários:

  1. Só por capricho, porque me doem as moscas daqui - não por merecimento, certamente, ideologicamente muito menos. Mas as vezes se dá o braço a torcer e se deixa de ser tão... rancoroso? (escolhi três palavras antes dessa, veja só).

    Enfim, o final está errado, nem sei bem o quê. Acho que é uma frase que não se acerta [e talvez não se acerte por ser mentira, ou uma verdade na qual eu não acredito.], mas faz parte.

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  2. É como beber um vinho, ler.

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