sábado, abril 11, 2009

enfim

E o que eu falo, te seguindo o som seco dos sapatos, para que me ouças e, em sorte, te detenhas e permitas o resto da explicação: Espere aí! (haveria, claro, de ser melhor, mais circunspecta e dileta sem a efusiva presença d'exclamações, não fosse o temperamento exaltado e o tempo curto)

E, hm, a impaciência que me corre pela espinha ao estar tão incerto de tua partida - e vejo agora, em retrospecto, como a tua silhueta s'afastava longerrápido no fantasmagórico do reflexo dos vitrais, uma lágrima furtiva no canto da mandíbula cintilando, revelada apenas pelo cabelo preso que te revelava-me a nuca - no agourento nublar do céu (seria vil demais supor o compartilhamento de minha desgraça com o resto do mundo?). Os meus olhos prenderam-se aos teus calcanhares como se deles dependesse minha humanidade.

Num violento refluxo carnal, tomei-te nos braços de súbito, tão rápido vi em teu andar alguma dúvida de parada. Postes-te na ponta dos pés enquanto eras bailarina nos corredores, num meiogiro que te ergueu o cós da saia, suspensa o bastante para permitir o encaixe hermético de nossos lábios. Falamos por longo momento, quase discursados sobre o assoalho, antes de desvencilharmo-nos arredios e eriçados, sentindo, misturado com o francês do teu perfume, o olor intenso do sangue vivo.

Meu Eu te amo reverberou pelas paredes, causando-te um asco tão fresco que, na expressão da tua face (de onde a beleza do meu amor eu ainda via), sobressaltou três leves pulsos do meu coração. Eu não posso acreditar, tu me disseste. Procurei na tua voz uma verdade entre o rancor, acostumado com o jeito costumeiro de cortares-me com palavras, e vi a realidade translúcida do ruir do teu afeto. Fiz-me quieto.

É isso?, foi meu sussurro, depois dos eternos segundos em que temi a inevitabilidade dessas palavras, Nosso amor não vale a luta?, e era eu a criança de vidro à tua frente. De olhos molhados e com teu sorriso mais doce de todos, fechastes os braços no teu peito, encaixastes tua forma pequena no meu abraço, e soprastes no meu ouvido: Que amor?

8 comentários:

  1. tipo de texto que só desilusões amorosas produzem.

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  2. Engraçado que eu cheguei a escrever um comentário de "Não é autobiográfico" mas apaguei por preguiça. Um amigo meu tinha recém me reclamado do fim de um namoro de, o quê -- 4anos?, e foi meio a inspiração.

    Não que o texto seja triste. Eles estão juntos, percebam.

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  3. anyway, o meu comentário continua valendo, pois foi produzido de uma desilusão, mesmo que não sua; e é claro que tem muito da sua vida aí, também, e não poderia deixar de ter, pra ter ficado tão honesto.

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  4. E aliás, agora com o crítico literário do futuro encarnado, esse seu texto pode ser considerado auto-biográfico, sim. Um último adeus à alguma desilusão amorosa passada, que se dissolve da despedida para um novo template, mais alegre, mais vivo. Um sinal inconsciente de uma nova era, um novo começo. Mais: o sinal de que o autor se sentiu seguro o suficiente para olhar para trás sem ser constrangido, e agora, sim, consumado está, sua vida de cara nova. Quer dizer, seu blog de cara nova.

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  5. 1º: q.

    2º: Você deveria considerar que a honestidade pode ser apenas a minha qualidade literária [RÁ]. Se parece tão pessoal é apenas por eu ter planejado o texto tendo como voz as pessoas do Eu te amo.

    E a mudança de template é só do template. Life goes on, same as aways.

    PS.: Meta de cu é rola.

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  6. Você está sendo evasivo, rapaz. Que foi, hein, falei demais?

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  7. Lembrando que você é tão capaz de versar sobre o assunto quanto eu, já que estamos falando de um nível não-consciente de sua literatura.

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  8. concordo totalmente.

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