No revirar dos papéis ele encontrou uma carta. O sangue foi lavado na brancura da surpresa e ele tentou esconder-me o papel, empurrando-o de qualquer jeito de volta para a gaveta, ainda tremendo com a caligrafia de "Querido Amor," brilhando sob as pálpebras. Agia como se nada acontecesse, tentando desperceber o que eu já tinha reparado; a única questão que ainda havia era quem ele protegia: ele ou eu?
"Querido Amor," ela começava. Eu saberia, eventualmente, ao arrastar furtiva a gaveta no silêncio de uma noite quando ele ainda trabalhava, não só isso, mas todo o resto. "Saudades. Nos últimos dias, minha única companhia tem sido as estátuas da praça. Acho graça na forma como elas, mesmo inanimadas e suas desconhecidas, concordam sobre as suas manias mais irritantes. Elas não se divertem mais, porém, ao ouvirem falar de ti. De amores elas já estão cheias, me dizem, e nada novo nos torna especial. A verdade disso me dói, mas ao mesmo tempo...
"Ao tirar as fotos desses homens de cimento, esqueci por um momento que para todos da cidade eles sempre estão lá. E foi assim, subindo no banco e nas pontas dos pés para alcançar-lhes o canto da orelha, que sussurrei que, para o mundo, eles são tão banais quanto o nosso amor.
"A terra úmida fez com que eles orvalhassem e uma única gota projetasse do canto do olho, escorrendo como lágrima. Foi triste a minha vingança, eu senti, mas necessária pela dúvida que me impuseram.
"Sentada aos pés deles, mesmo assim, pedi perdão. Perdão em bom português, para que apenas eles, em meus sonhos, entendessem. As pessoas que iam e vinham me olhavam estranho e assim para meu amigos cinzentos. Era uma inesperada retomada de atenção. Pedi perdão, dizendo que após todas as coisas que eu vi, todas as coisas que eu carrego em foto comigo, todas elas já se foram. Tudo digno de atenção não me importa mais.
"Minha foto da Torre Eiffel. Eu mostrei para eles, tão distantes de Paris. Mostrei o ângulo, a luz, a sombra das pessoas nas janelas. Mas eu contei para eles da menina que caminhava com o pai de mãos dadas, carregando uma boneca, que logo caiu no chão. E assim, de como a menina, num beicinho tão francês, olhou chorosa para a boneca suja, fazendo o pai se abaixar e limpar os joelhos da neta de pano. E contei de como as fotos ficaram ruins, sem luz, tremidas, mas de como é disso que eu lembro do dia, e não da Torre Eiffel. Empilhe o metal como quiser, para casa leva-se apenas uma lembrança; pelo pai e a filha eu levei uma adoração mais doce, mais íntima, mais minha.
“De qualquer forma... a saudade que eu mando será maior quando a carta te alcançar. Assim como --“ era o fim abrupto da primeira página. O som da casa ganhando vida fez com que eu despertasse de qualquer loucura e abandonasse a página de volta na gaveta, sem tempo de procurar a continuação. Enquanto escapava para quartos mais seguros, onde eu fosse – ou simplesmente parecesse - inocente de qualquer suspeita, temia no fundo a tensão que residiria dos segredos de nossos olhares.
quinta-feira, outubro 16, 2008
enxerto
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