quarta-feira, outubro 08, 2008

infantil

Mariazinha carregava uma lancheirinha com a merenda. Joãozinho filava a comida do amiguinho ao lado. Mariazinha derrubou as bolachas no chão. Joãozinho riu. Mariazinha chorou. A professora ralhou com os dois.

Pequeno João chegou em casa batendo a porta. A mamãe pôs ele de castigo. Pequeno João respondeu. O papai deu uma surra nele. Todo mundo ficou irritado. Pequena Maria não olhava mais o pequeno João direito.

João matou aula. Maria foi atrás dele. Os dois sumiram por horas. Ninguém procurou eles - mas eles se procuraram -, ninguém sentiu falta deles - mas eles sentiram na separação -.

João viu a água correndo sob a ponte. Maria viu as areias empilhando. João era João Velho. Maria era Maria Velha.

E João, ainda João, cansado de tudo e de nada, trabalhava em árduos turnos para arranjar dinheiro. Ele tinha ainda, pelo menos, 50 anos, imaginava. Ele tinha mais. E o dinheiro deu. Ele comprou um diamante de presente e todo mundo chorou e chorou, mas João não ria mais. Ele chorava com os outros, feliz em fluxos de lágrimas. Acabou o churrasco e a cerveja, eles tomaram banho e se deitaram no escuro, se procurando a noite inteira. Mas todo mundo notou quando eles não voltaram.

E os filhos choraram, os netos choraram e os bisnetos - que tinham recém ouvido a história de como João seguiu Maria até o cinema, quando ela andava de mão dadas com Pedro, e gritou com lágrimas nos olhos "Maria, não me deixe! Eu te amo!" envergonhando todo mundo que tava lá porque, Velho João de voz rouca, a maioria das pessoas não ama de verdade e se envergonha com amor genuíno - choraram também.

E era tanta lágrimas, mas tanta lágrima, que Maria e João riram. Juntos. Uma última vez, como se todo o choro fossem as bolachas sujas no chão.

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