O rosto dela era um contorno que dançava, mal se via um olho, a boca traçada apenas, se ela falasse alguma coisa, pelo menos... não tinha dia, a noite era uma eternidade e era fria, ela pálida de uma brancura dum nada natural, súbita, uma folhinha de papel, ele podia desenhar nela todas as coisas do mundo que fossem bonitas e feias, mas teria que viver com os erros de seus rascunhos, também. Tinha luz nela e o resto era escuro, caminhava ao seu redor sentado na cadeira, podia ver ela daqui e dali de todos os lados, muitas coisas para ver, as pintas que pintavam seu rosto e eram até bonitinhas, os cílios que encurtavam, as veias nos olhos de tanto ela ver as coisas, os pelinhos da pele no rosto, desses que se vêem só contra o sol, nesses dias de calor que é quente tanto que não resta fôlego prum mínimo qualquer de amor entre dois estranhos, ele a contaria fingindo que ela se importaria, sendo talvez tão educada que podia mesmo prestar atenção, "eu gosto muito de ouvir as pessoas falando, porque as pessoas falam tantas coisas estranhas quando se presta atenção de verdade", ela entediava murchando, sumindo dentro da areia, ele metia seus dedos para apalpar um áspero roçar de nada, cabeceando areia adentro sem ter medo de sufocar, ela se perdia numa imensidão, batia uma brisa que a levava embora, a imagem dela distanciando como um sonho recém-sonhado, cheio de gosto de uma realidade que vai desvanecendo, indo longe, se percebendo um crente delírio que, então, já não é mais; ela se perde entre todas outras coisas suas, ela é a lembrança da menina na sala escura, talvez linda, como ele poderia saber?, se escondendo num esquecimento entre muitas outras meninas de sonho que duraram tempo o bastante para um suspiro e nada mais.
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