O sufoco da noite escura e madruguenta fechou sua gargante e pôs os dedos bem dentro de seu nariz. Ele caiu junto com a água em desespero, seu jeito trêmulo rolante até embaixo da mesa; rodopiando e quicando, como moedas de um centavo se perdendo nos cômodos e sob os móveis - mas o corpo dele nem fez o barulhinho do metal contra o azulejo, fez um som seco e fraco, que se abafou rápido e ninguém ouviu. A geladeira, por outro lado, despertou nesse mesmo instante c'um rugido metálico; essa vida inexperada fez um frio da espinha subir e descer por suas costas. Embaixo da mesa, ele se sentia covarde e com frio - nesse mesmo momento, num inexperado de mágica, nasceu o Frioso Amedrontado, seu alter-ego de pequenez acentuada, pés descalços, pijama de marinheiro e olhos gigante de mundo, que o acompanharia silenciosamente em todos os momentos de impotência, humilhação e covardia de sua vida -, certo de que seus pais não ouviriam seu chamado - melhor ainda: que sua boca não conseguiria sequer dar o grito! - quando os ratos da casa cercassem-no e tentassem comê-lo ou, pior, cantar para ele canções de Natal.
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