sexta-feira, agosto 08, 2008

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Ele era um pequeno garoto que corria sobre os confetis coloridos do chão.

O céu nublado desbota os seus olhos, ele disse.

O quê?

É o que acontece quando só se escreve textos de amor.

Ele continuou correndo até a beira de um rio. Sentou contando as folhas carregadas pela corrente, uma atrás das outras, uma atrás das outras, girando e dançando e naufragando contra pedras, engolidas por monstros do mar. Ele me falou dos medos da tempestade, dos relâmpagos que raiavam o céu na noite, do vento que tremia as janelas; de como o vidro vibrava antes de se despedaçar e fazia-o temer que ele fosse despedaçar também, como um menino de vidro.

Ele abriu as mãozinhas para molhar na água quando dizia do conforto das cobertas e da proteção dos lençóis quando ele se escondia em uma bolinha fofa de algodão na cama, e secando as mãos na bermuda ele virou sorrindo dizendo que era um pequeno tatu.

E eu nunca estou sozinho lá dentro, ele falou com os pézinhos querendo se apressar, nem que eu esteja apenas comigo mesmo. É estranho, né?

Tudo é estranho, eu falei.

Por quê, ele olhou com o rosto meio de lado atraindo a resposta para si.

E eu falei de quando teimava para cobrir com as cobertas o meu frio. De quando a chuva não dava medo mas saudade, lembrando da forma como ela caiu pela primeira vez entre as folhas da árvore por onde antes passava o sol e molhou o rosto e o corpo e a não-solidão para sempre, fazendo de todo amor algum tipo de umidade. Toda noite de chuva era noite de chover palavras, sozinho para sempre no único momento em que não havia solidão.

Ah, como era ruim isso. Como era ruim estar contando todos os meus Era uma vez assim, da mesma forma que num dia, em Era uma vez, nós estávamos no chão apaixonados e as coisas todas começaram a escapar pelos dedos uma a uma como grãos de areia. E foram eu te amo's com corações e outras palavras bonitas, e foram as distâncias que ficavam entre nós, e foram o medo de perder aquilo junto com a alegria de ser aquilo, e a consciência de tudo asfixiando a garganta e fazendo as últimas palavras serem um sussurro para as formigas nem a grama nem as folhas das árvores poderem ouvir as primeiras trêmulas juras de amor. E tudo isso foi durante o sol, antes da chuva. Durante a chuva, tinha só chuva.

Não me olhe assim, não me olhe mais assim, eu pedi. Ele me olhava com olhinhos antes tão puros de vilania, agora tão refletivos da verdade [que por isso eram ainda os mesmos]. Deixando para trás o gosto ruim na boca da conversa atravancada que não resolveu a nossa despedida, ele partiu. Como todos que não eu.

***edit [quase lá]

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